Nós, escritores,
amamos o que fazemos
até nos penitenciarmos por não termos feito
o que queríamos
o que pensávamos
o que nos bastaria, se é que há.
Nós, escritores,
somos feitos de uma matéria porosa
um pouco sangue, um tanto tinta, meio pó,
ultimamente.
Nós, escritores,
ampliamos a sensação do coito-enter
e gozamos-print,
embebedando-nos de mais idéias no fim da noite
que nunca acaba.
Nós, escritores,
não dormimos enquanto
a personagem não tira a maquiagem;
se ela limpa a pele, seguramos o algodão sujo
e cobrimos nosso vilão com um trapinho puído
para que acorde bravo e nos sirva ainda.
Nós, escritores,
temos um duplo espírito
encarnado nessa terra
que responde por leitor.
Nós, escritores,
acalentamos o sonho de sermos lidos
mais ainda, compreendidos,
amados, odiados,
lembrados e citados
perseguidos e queimados
nós e nossos escritos:
mártires de uma cruzada imaginária
como nossas palavras impublicadas.
Nós, escritores,
odiamos o editor pedante
assassino de textos recém-nascidos,
senhorio das terras impressas
cujas portas estão cheias de cartas de recusa.
Nós, escritores,
não sabemos por quem chorar;
se a mágoa tem que caber no peito
para virar palavra que se sente
não tem como aparecer no canto do olho,
resseca sem vir à luz.
Nós, escritores,
olhamos o outro através da semântica
e perdemos, pouco a pouco,
a vontade de conhecer.
Nós, escritores,
vez em quando,
quase sempre,
duvidamos que existimos.
Se criamos novos mundos
Como podemos ser reais?
Nós, escritores,
Somos a ficção.
Allexandra Lopez
Jun/09
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